O varejo alimentar em julho de 2026 registrou a menor ruptura de toda a série histórica da Scanntech. Foram apenas 4,4%, ou seja, uma queda de 2,4 pontos percentuais contra julho de 2025. Do ponto de vista operacional, portanto, isso é uma conquista. Afinal, menos gôndola vazia significa menos venda perdida por falta de produto.

No entanto, as unidades vendidas caíram 2,1% no mês. Além disso, o fluxo em loja recuou 3,0%.
Em outras palavras, o produto estava na gôndola, exposto e disponível. Mesmo assim, o shopper não pegou. Enquanto isso, a não-venda subiu para 11,4%, um avanço de 2,7 p.p. Por consequência, os dias de estoque chegaram a 46, cinco a mais que no ano anterior.
Durante duas décadas, o setor tratou perda de venda como problema de abastecimento. Assim, a pergunta era sempre a mesma: por que faltou? Porém os dados apontam para outra pergunta, bem mais incômoda. Isto é: por que sobrou?
O que o varejo alimentar em julho de 2026 mostrou nos números
O faturamento em mesmas lojas cresceu 1,8% no mês. Já no acumulado do ano, o avanço é de 2,2%. Se você considerar a abertura de lojas, então o total chega a 3,6% no mês e 4,7% no ano. Isoladamente, portanto, esses números rendem uma reunião de resultados tranquila.
A decomposição, contudo, desmonta a tranquilidade.
| Indicador (mesmas lojas) | Julho/26 | Acumulado 2026 |
|---|---|---|
| Valor | +1,8% | +2,2% |
| Unidades | −2,1% | −1,4% |
| Preço por unidade | +4,0% | +3,7% |
| Embalagem | +0,7% | +1,4% |
| Fluxo em loja | −3,0% | −1,7% |
| Volume | −1,4% | 0,0% |
Fonte: Radar Scanntech, julho de 2026, mesmas lojas.
Até junho, de fato, o crescimento tinha uma defesa razoável. Os preços subiam e as unidades caíam, mas o volume ficava estável. Ou seja, o shopper comprava menos itens em embalagens maiores. Portanto, o consumo seguia preservado.
Em julho, todavia, isso quebrou. A embalagem perdeu força como compensação, porque avançou apenas 0,7% contra 1,4% no acumulado. Como resultado, o volume passou a cair 1,4% no mês. Assim, já não é reorganização de carrinho. Na verdade, é menos comida saindo pela porta.
Além do mais, não se trata de anomalia de um mês, como já discutimos ao mapear os três freios que travam o varejo brasileiro. No primeiro trimestre, por exemplo, o mesmo painel já registrava faturamento de +1,4% com unidades em −2,1%, segundo o Times Brasil/CNBC. Igualmente, a McKinsey já havia apontado queda de volume ao longo de 2025. O desempenho do varejo alimentar em julho de 2026, portanto, não inaugurou a tendência. Contudo, ele tirou a última almofada que a escondia.
Ruptura e não-venda: dois problemas opostos
Aqui está o ponto que separa a leitura operacional da leitura estratégica no varejo alimentar em julho de 2026.
Primeiro, a ruptura. Ou seja, o produto que o cliente queria e não encontrou. Logo, ela custa venda imediata. Além disso, corrói a confiança na loja.
Segundo, a não-venda. Isto é, o produto que estava lá, com estoque, e não saiu do lugar. Portanto, ela custa capital de giro, espaço de gôndola e margem. Ao contrário da ruptura, porém, ela é invisível no relatório de vendas. Afinal, você não enxerga o que não aconteceu.
No varejo alimentar em julho de 2026, por sua vez, ruptura em queda e não-venda em alta não indicam problema de logística. Na verdade, indicam problema de mix. Assim, a cadeia entregou e a loja posicionou. Entretanto, a demanda não apareceu.
Por cesta, aliás, o descolamento é bastante desigual:
| Cesta | Ruptura | Não-venda | Dias de estoque |
|---|---|---|---|
| Perfumaria | 4,2% (−3,0) | 13,0% (+3,3) | 74 (+13,3) |
| Limpeza | 5,1% (−1,8) | 13,0% (+3,3) | 57 (+5,0) |
| Mercearia | 4,0% (−2,8) | 11,8% (+2,9) | 56 (+4,9) |
| Bebidas | 3,7% (−2,4) | 10,2% (+2,1) | 43 (+2,6) |
| Perecíveis | 5,5% (−1,5) | 10,4% (+2,2) | 26 (+1,5) |
Fonte: Scanntech – Scann&OP, julho de 2026. Variação em p.p. contra julho de 2025.
Perfumaria com 74 dias de estoque dentro de um supermercado, por exemplo, é capital parado. Pior: a categoria não perdoa, porque tendência de beleza gira rápido. Logo, o que não vendeu em dois meses e meio dificilmente vai vender em três.
O que fazer com 46 dias de estoque
Dias de estoque alto não é um problema por si só. Em uma categoria de giro rápido e sazonalidade previsível, por exemplo, cobertura maior antes do pico é gestão competente.
Contudo, o sinal vira alerta quando três coisas acontecem juntas. Primeiro, a ruptura cai. Segundo, a não-venda sobe. Por fim, o giro desacelera. Assim, foi exatamente a combinação do mês.
Na matriz de ruptura x estoque da cesta de Mercearia, aliás, o chocolate ocupa o quadrante mais caro. Ou seja, ele tem a menor ruptura da cesta, com 3,2%, e o maior estoque, com 69 dias. Em outras palavras, a loja abasteceu pelo calendário, enquanto o consumidor decidiu pelo termômetro. Já o leite em pó lidera a ruptura, com 5,7%, mesmo com dias de estoque altos. Nesse caso, portanto, o sinal é de distribuição interna, não de compra.
Promoção no varejo alimentar em julho de 2026: mais esforço, menos retorno
O setor tentou reagir com a alavanca de sempre. Entretanto, ela respondeu menos.
O peso promocional subiu para 25,8%, ou seja, um avanço de 1,4 p.p. Além disso, as ações duraram mais, com +2,7% de vigência média. Somado a isso, os descontos ficaram mais profundos, em 20,4%. Portanto, houve mais esforço nas três dimensões. No entanto, a venda incremental total ficou em 58,3%.
Por formato, de fato, a resposta é bem desigual:
- Primeiro, o supermercado de 1 a 4 lojas: peso de 13,4%, desconto de 20,5% e incremental de 57,7%.
- Segundo, o de 5 a 9 lojas: peso de 20,2%, desconto de 21,0% e incremental de 59,3%.
- Além disso, o de 10 lojas ou mais desconta 21,4%, porém entrega apenas 54,4% de incremental.
- Por fim, o atacarejo: peso de 31,6%, desconto de 19,5% e incremental de 68,5%.
Repare no atacarejo, portanto. Ou seja, ele combina o maior peso promocional com o menor desconto médio e a maior venda incremental do canal. Assim, ele não desconta mais fundo. Na verdade, ele desconta melhor, em categorias certas, para quem já entrou com missão de abastecimento.
O caso do café: por que descontar deflação não funciona
O café aparece no Top 3 negativo de performance promocional em três dos quatro formatos. Contudo, a explicação está fora da gôndola. Afinal, a categoria acumula 17% de deflação em 12 meses. Igualmente, o arroz caiu 10% e o açúcar, 21%.
Quando o preço já caiu 17% sozinho, então o desconto extra deixa de ser oportunidade. Ou seja, ele vira preço normal. Assim, o shopper não estoca, porque não sente urgência. Enquanto isso, o varejista queima margem por um volume incremental que não existe.
Portanto, vale uma regra prática. Antes de aprovar uma ação, primeiro cheque a variação de preço da categoria em 12 meses. Isto é, categoria em deflação profunda precisa de ativação de consumo, como receita, combo ou ocasião. Contudo, ela não precisa de mais desconto.
O efeito K chegou ao ponto de venda
O estudo Massa Crítica, produzido por Scanntech, Google e McKinsey, dá nome ao movimento que atravessa o varejo alimentar em julho de 2026. Ou seja, famílias de renda alta ganharam poder de compra. Já as famílias de renda baixa perderam, pressionadas pelo endividamento. Como cada grupo anda para um lado, portanto, o resultado agregado parece estabilidade.
A prova mais dura, contudo, não está na macroeconomia. Na verdade, ela está no bairro.
A análise da Scanntech em São Paulo mostra troca por marcas baratas nos bairros de baixa renda. Ao mesmo tempo, há troca por marcas premium nos bairros de alta renda. Isso acontece na mesma cidade, no mesmo mês e, inclusive, na mesma bandeira. Em 58% das categorias, aliás, as marcas premium têm saldo positivo de crescimento.
Sob a ótica do shopper, por sua vez, um dado resume o risco. Ou seja, o shopper valioso gasta 177 vezes mais por mês que o shopper residual. Portanto, perdê-lo não é perder um cliente. Na prática, é perder uma carteira inteira.
Assim, isso muda três decisões. Primeiro, a rede de bairro precisa abandonar a política única de sortimento, porque ela virou passivo. Segundo, a indústria troca a conversa de share na rede pela conversa de presença por loja. Por fim, o distribuidor descobre que a rota deixou de ser logística, uma vez que virou sortimento ponto a ponto.
Clima e missão de compra reescreveram a cesta
O varejo alimentar em julho de 2026 também enfrentou um mês mais quente que julho de 2025. Segundo a MetSul Meteorologia, o El Niño atingiu +2°C de anomalia, patamar inédito para o mês. Além disso, o Inmet projeta o fenômeno se fortalecendo no segundo semestre.
No carrinho, portanto, o impacto foi cirúrgico. Cresceram em unidades, por exemplo, energético (+27,3%), isotônico (+21,4%) e água (+12,9%). Em contrapartida, caíram vinho (−12,3%), whisky (−9,1% em valor) e chá (−5,5%).
Mesmo assim, a cesta de Bebidas cresceu 4,4% em valor. Ou seja, as alcoólicas responderam por 16% da queda de unidades de todo o canal. Enquanto isso, as não alcoólicas contribuíram com 15% do crescimento em unidades. Ainda assim, a cerveja caiu 5,2%. Logo, calor não salva tudo.
As missões de compra, por sua vez, também mudaram. Nos 15 bilhões de tickets monitorados pela Scanntech, de fato, o abastecimento perdeu 1,58 p.p. de importância. Em contrapartida, o expresso ocasional ganhou 1,76 p.p.
Assim, lar menor faz compra menor, e o calendário de agosto ainda traz o efeito da Copa do Mundo de 2026 sobre a cesta. Portanto, o formato que encolhe é justamente o de maior ticket. Aliás, o shopper que volta todo mês gasta o dobro do shopper novo. Além disso, ele volta por categorias de reposição, como queijo, ovo, pão e leite. Já o shopper novo entra por outra porta, isto é, um desodorante, um barbeador, um item de emergência.
Portanto, são dois motores diferentes. Contudo, tratar os dois com a mesma promoção de fim de semana desperdiça os dois.
- Primeiro, limpeza: 81% de importância em abastecimento. Além disso, ativa junto com detergente, biscoito e papel higiênico.
- Segundo, perecíveis: 74% em abastecimento. Aliás, a fruta ganhou 0,46 p.p. de incidência e puxa fluxo na reposição.
- Por fim, mercearia: apenas 53% em abastecimento, porque 26% vem de reposição. Logo, é a cesta mais fragmentada.
Como aplicar os dados do varejo alimentar em julho de 2026 na sua operação
Assim, cada modelo de negócio tem um indicador que importa mais em agosto:
- Primeiro, a rede de supermercados olha não-venda por loja e por cesta. Portanto, corte o SKU com 60 dias ou mais de estoque e giro zero em 30 dias.
- Segundo, o atacarejo olha venda incremental por categoria. Ou seja, mantenha desconto raso, porém na categoria certa.
- Além disso, a indústria de FMCG acompanha incidência nas cestas. Assim, defenda presença no ticket, não no faturamento.
- Em seguida, o distribuidor cruza ruptura com dias de estoque por ponto. Logo, o sortimento passa a ser revisto loja a loja.
- Por sua vez, farmácia e perfumaria vigiam dias de estoque, porque 74 dias em beleza é risco de obsolescência.
- Por fim, franquias e redes monitoram fluxo em loja. Contudo, fluxo em queda pede plano de tráfego, não de preço.
Cinco erros comuns na leitura desses dados
- Primeiro, comemorar faturamento sem decompor. Ou seja, crescimento sustentado só por preço é crescimento emprestado da inflação. Portanto, separe sempre valor, unidades e preço.
- Segundo, confundir ruptura baixa com operação saudável. Na verdade, ruptura baixa com não-venda alta é excesso de estoque disfarçado de bom serviço.
- Além disso, comparar mesmas lojas com total de lojas. Isto é, o mês fechou 1,8% em mesmas lojas e 3,6% no total, porque a diferença é abertura.
- Em seguida, ignorar o calendário. Afinal, a última semana cresceu 2,7% e respondeu por 0,4 p.p. do mês. Sem ela, portanto, o resultado seria 1,4%.
- Por fim, tratar o Brasil como um mercado só. Enquanto o Centro-Oeste cresceu 4,5%, o Norte caiu 0,1%. Logo, a média nacional não descreve nenhuma região.
Checklist de 30 dias para o gestor
- Primeiro, rode o relatório de não-venda por SKU e por loja dos últimos 60 dias.
- Em seguida, cruze não-venda com dias de estoque e liste o quadrante de giro zero.
- Além disso, cheque a variação de preço em 12 meses de toda categoria com promoção aprovada.
- Depois, compare venda incremental por categoria contra a profundidade do desconto.
- Assim, segmente lojas por perfil de renda do entorno e teste duas curvas de sortimento.
- Igualmente, antecipe o portfólio de calor pela projeção do Inmet, e não pelo histórico.
- Por sua vez, crie plano de saída para categorias de inverno, como vinho, whisky e chocolate.
- Contudo, separe ações para o shopper recorrente e para o shopper novo.
- Por fim, meça fluxo em loja como KPI próprio, isto é, desacoplado do faturamento.
O que o varejo alimentar em julho de 2026 ensina para agosto
O varejo alimentar em julho de 2026 fechou mais um mês crescendo em reais e encolhendo em unidades. Contudo, em julho a última defesa cedeu. Ou seja, a embalagem maior já não segura o volume.
Assim, o varejo alimentar em julho de 2026 deixou um retrato desconfortável. A operação melhorou, porém a demanda não veio. De fato, houve gôndola cheia, promoção mais intensa e ruptura na mínima da série. Ao mesmo tempo, entrou menos gente e mais capital ficou dormindo em estoque.
Portanto, quem continuar lendo esse cenário como problema de abastecimento vai investir em capacidade que já sobra. Na verdade, a pergunta que dá dinheiro em agosto é outra. Isto é: o que está na minha loja há 46 dias e o meu cliente decidiu que não precisa?
Essa resposta, contudo, não aparece no ERP consolidado no fim do mês, do mesmo modo que o comércio agêntico não aparece no relatório de vendas de hoje. Na prática, ela nasce do cruzamento entre venda por SKU, estoque por loja, perfil do entorno e comportamento do ticket. Logo, é esse tipo de leitura que separa quem reage em quatro semanas de quem descobre em quatro meses.
Perguntas frequentes sobre o varejo alimentar em julho de 2026
Por que o faturamento cresce enquanto as unidades vendidas caem?
Porque o crescimento vem de preço, e não de consumo. Ou seja, o preço por unidade subiu 4,0%, enquanto as unidades caíram 2,1%. Como resultado, o faturamento fechou em +1,8%. Portanto, trata-se de crescimento nominal, sustentado pela inflação da cesta.
Qual a diferença entre ruptura e não-venda?
Primeiro, ruptura é o produto que o cliente procurou e não encontrou. Segundo, não-venda é o produto disponível que não registrou nenhuma venda no período. Assim, ruptura indica problema de abastecimento. Já a não-venda indica problema de mix ou de demanda.
Quantos dias de estoque são considerados altos?
Depende da cesta. No mês analisado, por exemplo, perecíveis operaram com 26 dias e perfumaria com 74. Portanto, o parâmetro relevante não é o número absoluto. Na verdade, o alerta é a combinação de estoque subindo, não-venda subindo e ruptura caindo.
O que é o efeito K no consumo?
É a divergência de poder de compra entre faixas de renda. No ponto de venda, por sua vez, ele aparece como troca por marcas premium em bairros de alta renda. Em contrapartida, há troca por marcas baratas em bairros de baixa renda, inclusive dentro da mesma cidade.
Aumentar o desconto sempre aumenta a venda incremental?
Não. De fato, o peso promocional subiu 1,4 p.p. sem ganho proporcional de venda incremental. Aliás, o atacarejo obteve o maior uplift do canal, com 68,5%, usando o menor desconto médio. Logo, categorias em deflação profunda, como café, respondem mal a desconto adicional.
Onde encontrar os dados do varejo alimentar em julho de 2026?
O levantamento vem do Radar Scanntech, isto é, um relatório mensal publicado em 5 de agosto de 2026. Além disso, ele cobre mesmas lojas, cestas, perfis de loja, performance promocional e comportamento do shopper no canal alimentar brasileiro.